Intervalo de jogo: inesperadamente, os Estados Unidos iam vencendo o Brasil por 2 a 0. Levantei da sala, onde assistia ao jogo com o meu avô, para ir à cozinha comer um pedaço de bolo enquanto o jogo estava parado. “Agora até nisso eles estão ganhando da gente?”, reclamou vovó, que ouvira nossos lamentos enquanto lia o jornal. Resmunguei qualquer coisa e peguei uma parte d’O Globo que estava em suas mãos. Abri justamente em uma reportagem que esmiuçava alguma das muitas barbaridades cometidas pelos militares durante a ditadura. Foi automático perguntá-la quantos anos ela tinha quando veio o golpe e o que ela achava daquilo tudo: “Ah, eu já tinha meus 30 e poucos anos. O que eu acho? Olha meu neto, eles não deviam ter ficado tanto tempo. Mas agiram certo. O país estava uma bagunça. Se deixassem, iríamos cair nas mãos dos comunistas!”. E falava com o mesmo temor de quem teme que hoje ou amanhã possa a vir assaltado na rua. Por mais que eu já tenha lido a respeito, não me sinto confortável em confrontar quem viveu aquilo tudo, quem foi testemunha ocular. Deixei que continuasse: “Torturaram só quem era subversivo! Ninguém lembra que eles também assaltavam bancos e matavam inocentes”. Era engraçado ver a minha avó, doce e afável por natureza, defendendo os militares com aquela veemência! Uma perfeita reacionária.
Fui tentando argumentar falando dos exilados: Caetano, Gil, Betinho, Niemeyer, Gabeira... “Esse Gabeira é um safadão! Seqüestrador e maconheiro!” Falou, como se o rapto fosse o menor de seus delitos. Eu achava tudo aquilo incrível, pois percebia o quão variável pode ser o enfoque de uma situação. Pra mim o Gabeira é quase um paladino da liberdade, um herói mesmo... “COMEÇOU”, gritou o vovô lá da sala. Futebol era o que menos me interessava naquele momento. Queria perguntar mais, ouvir mais, ver através de outras lentes. Lentes essas que me pareciam um tanto desfocadas. Se dependesse da minha vontade, passava horas com aquela conversa. “GOOOOOOOOOOOL!”. Não deu. Numa repetição microscópica do que a seleção de 1970 fez com as convulsões políticas na população brasileira à época, Luís Fabiano acabou com a minha festa. “Vai lá, neto!”. Com o instinto futebolístico falando mais alto,corri pra sala para acompanhar a partida, que acabou com o Brasil campeão vencendo por 3x2, e nosso embate ideológico não pôde continuar.
A ditadura, do meu ponto de vista